Foi na Procissão das Fogaceiras de há 220 anos, na alvorada do século XIX, que Nicolau Gomes, de 26 anos de idade, viria a conhecer Rosa Maria, de 20 anos, com quem se iria a casar e constituir uma família que aumentava ao longo das décadas seguintes e vai perdurar até aos dias de hoje, transformando-se no que poderíamos apelidar de Clã dos Nicolaus de Souto.
Nicolau Gomes era natural do Lugar de Tarei, da freguesia de Travanca, enquanto Rosa Maria tinha vindo à festa na Vila da Feira com a sua família oriunda de Santa Maria de Lamas. Quando se conheceram, logo combinaram encontrarem-se, sempre que possível, na Feira dos Vinte, que durante muitos anos se realizava junto ao Castelo e que mais tarde passou a ser organizada no sítio do Rossio.
O namoro foi prosseguindo até que, no ano seguinte, tenham decidido se unirem pelos laços do matrimónio. Foi um casamento com grande impacto na época. Aconteceu no dia 3 de Junho de 1801, na antiga Igreja Matriz de Souto, actualmente denominada Capela de Nossa Senhora do Parto.
Conta o pároco da Igreja de Souto, no respectivo registo, que após terem sido feitas as denunciações do costume em Souto e Santa Maria de Lamas e sem haver impedimento algum, compareceram “na presença de mim João José da Maia Reitor e das testemunhas abaixo assinadas Caetano José Maria Leal, do Padrão, e Francisco de Assunção, do lugar de S. Gião, ambos desta freguesia de Souto”, e se receberam como marido e mulher, a saber:
“Nicolau Gomes, filho legítimo de Manuel Gomes e Maria Ferreira, do Lugar de Tarei, freguesia de Travanca, neto paterno de José Gomes e Isabel Ferreira, do Lugar do Lameiro, da dita freguesia, e neto materno de Manuel Godinho e Maria Fernandes, do Lugar de Tarei, da freguesia de Souto, e
Rosa Maria de Jesus, filha legítima de Baltazar Coelho e Mariana de Oliveira, do Lugar do Morouço, freguesia de Lamas, neta paterna de Cosme Coelho e Catarina Pinheiro, do Lugar da Torre, a dita freguesia de Lamas, e neta materna de Clemente de Oliveira e Baptista Leite, do Lugar da Venda Nova, freguesia de Lourosa, todos da comarca da Feira, bispado do Porto.”
Foi uma cerimónia muito concorrida, pois não só contou com a presença de muita gente da freguesia de Souto que queria assistir ao evento, como tinha vindo uma comitiva numerosa de Travanca, de Santa Maria de Lamas e de Lourosa, com familiares e amigos dos noivos e dos seus pais.

O casal vai-se instalar no Lugar do Padrão
Nicolau e Rosa Maria foram-se instalar no Lugar do Padrão, onde desenvolveram a actividade agrícola e viam a família crescer ao longo dos anos que se seguiram. Tiveram 10 filhos. Dois anos após o casamento, a 2 de Novembro de 1803, nasceu a primeira filha, para quem escolheram o nome de Maria. Em Novembro de 1806, Rosa Maria daria à luz a sua segunda filha, Ana, que mais tarde seria mãe de Jacinto Gomes, o qual iria dar continuidade ao nome dos Nicolaus. O primeiro filho varão do casal, António, veio a nascer no dia 11 de Abril de 1809. Quatro anos depois, em Abril de 1813, nasceria o segundo rapaz a quem foi dado o nome de Francisco. Infelizmente, este viria a falecer prematuramente, ainda muito novo.
Depois dele iriam nascer mais quatro rapazes a quem deram os nomes de Manuel, José, Jacinto e Francisco, que ficaria com o nome do irmão falecido. Este filho não teve melhor sorte, uma vez que faleceu quatro anos depois do nascimento. Finalmente, já na casa dos quarenta, o casal iria trazer ao Mundo mais duas raparigas: a primeira a 28 de Julho de 1821, a que deram o nome de Joaquina, e a segunda de nome Joana que nasceria a 22 de Agosto de 1825.
Curiosamente, já tinha havido um outro Nicolau Gomes na região, embora não se conheça qualquer relação familiar entre ambos. Esse tal Nicolau Gomes nasceu no século XVII e viveu durante várias décadas do século XVIII na casa da família, no Lugar da Murtosa, na quinta hoje denominada do Ratão. Mas uma sua irmã de nome Maria Gomes iria casar em 1690 no Lugar de Macieira, da freguesia de Souto, com o Licenciado António de Pinho Oliveira. É sempre possível que alguém tenha ouvido falar do nome de Nicolau e o achasse adequado para dar a um filho seu.
A família de Nicolau Gomes e Rosa Maria foi crescendo ao longo dos anos, os filhos foram formando as suas próprias famílias e, por sua vez, foram dando ao Mundo os seus próprios filhos e netos, sempre continuando a viver na freguesia de S. Miguel de Souto, na sua maioria.

Juntos até que a morte os levou
Nicolau Gomes e Rosa Maria formavam certamente um casal muito unido, trabalhando a terra e criando os seus filhos ao longo dos anos, vendo crescer alguns dos seus netos.
Ficaram juntos até ao fim e faleceram quase em simultâneo, somente com um intervalo de apenas três dias. Primeiro seria a vez de Rosa Maria, que faleceu no dia 20 de Janeiro de 1843, com 62 anos de idade, e logo de seguida deu-se o desenlace de Nicolau Gomes, no dia 23 de Janeiro de 1843, aos 69 anos de idade.
Não se conhecem as circunstâncias deste falecimento quase ao mesmo tempo, mas certamente a doença que os vitimou terá sido contraída praticamente em simultâneo, tanto mais que iriam fazer igualmente em conjunto um testamento em que deixavam parte das casas e dos campos ao filho Manuel que vivia com eles.
O relato do seu falecimento é feito pelo reitor da Igreja de Souto, João José da Maia, que conta no respectivo registo que “Rosa Maria mulher de Nicolau Gomes, do lugar do Padrão, desta freguesia de Souto de idade de 62 anos, faleceu da vida presente, com todos os sacramentos, aos 20 de Janeiro de 1843; fez um testamento de consenso com o seu marido Nicolau Gomes, com que deixam o seu aposento de casa e campo ao seu Filho Manuel (…) com as obrigações seguintes: que os seus corpos serão envoltos em hábitos de paramentos pretos, em cima dos seus caixões, e acompanhados de casa até à sepultura (…) e se digam quinze missas pela alma de cada um”. Foram sepultados no Adro da antiga Igreja Matriz, actualmente Capela da Senhora do Parto.

O casamento do neto Jacinto em Souto
32 anos mais tarde, corria ao ano de 1875, vamos encontrar o casamento de Jacinto Gomes, um dos muitos netos de Nicolau Gomes, que iria dar continuidade ao nome dos Gomes, de Souto, e ao apelido do Nicolau que acompanha todos os seus descendentes. No dia 9 de Novembro, na nova Igreja Matriz de S. Miguel de Souto, Jacinto iria casar-se aos 31 anos de idade com Joana Maria de Oliveira, de 28 anos, lavradora do Lugar da Espinheira.
Conta o padre Domingos Francisco de Assunção que o enlace matrimonial teve como testemunhas “Manuel Domingos da Mota, casado, de profissão lavrador e morador no Lugar do Ferral, e Manuel Pereira Leal da Silva, casado, de profissão lavrador e morador no Lugar de Pousada, ambos desta freguesia. E para constar lavrei em duplicado este assento e depois de lido e conferido pelos cônjuges e testemunhas.”
O casal Jacinto e Joana vai viver para o Lugar da Espinheira e dedicar-se à actividade agrícola. Jacinto Gomes e Joana Maria de Jesus tiveram cinco filhos: Manuel Gomes dos Santos, Maria Rosa Gomes dos Santos, conhecida como a “Velhinha”, António Gomes dos Santos, Albino Gomes dos Santos e Ana Maria Gomes dos Santos, todos nascidos no referido lugar da Espinheira.

Muitos bisnetos de Nicolau Gomes
É praticamente impossível seguir o rasto de todos os descendentes de Nicolau Gomes quer mesmo em Souto quer noutras terras para onde tenham ido viver os filhos, os netos e bisnetos ao longo dos anos e das décadas. Assim fomos seguir a linhagem de Jacinto Gomes e de alguns dos seus descendentes mais directos que nasceram em Souto.
O primeiro bisneto de Nicolau Gomes aqui referido é o filho mais velho de Jacinto Gomes e de Joana Maria de Oliveira, Manuel Gomes dos Santos (na foto de cima, junto à Igreja Matriz), que nasceu no dia 10 de Dezembro de 1876 e foi baptizado no dia 14 de Dezembro desse ano. Teve como padrinho José de Oliveira, solteiro, jornaleiro, e como madrinha Maria Joaquina de Oliveira, solteira, ambos moradores no lugar da Espinheira, segundo conta o reitor Domingos Francisco de Assunção.
Em 25 de Junho de 1903, Manuel Gomes dos Santos casou com Maria Gomes da Silva, na Igreja Paroquial de Souto. Tiveram quatro filhas: Felicidade, Maria, Silvina e Clotilde. Maria Gomes da Silva viria falecer antes do marido, no dia 20 de Julho de 1936. Manuel Gomes, o bisneto mais velho de Nicolau Gomes, por seu turno teria uma vida longa, vindo a falecer no dia 6 de Outubro de 1971, com quase 95 anos de idade.
Quanto à primeira filha do casal, Maria Rosa Gomes dos Santos, nasceu no dia 23 de Julho de 1878, no lugar da Espinheira, sendo baptizada no dia 25 de Julho do mesmo ano, pelo presbítero Domingos Francisco de Assunção. Teve como padrinho José de Oliveira, lavrador, e como madrinha Rosa Maria de Oliveira, casada, do lugar do Ribeiro. Nunca chegaria a casar, tendo sido governanta na Casa da “Joaninha”. Era carinhosamente conhecida como a “Velhinha”, tendo falecido na freguesia de Souto aos 76 anos de idade, a 10 de Setembro de 1954. (Em cima na foto ao centro)
Já o filho António, nasceria a 4 de Dezembro de 1880 e seria baptizado no dia 30 de Dezembro do mesmo ano. Teve como padrinho Jacinto Soares Calçada e como madrinha Maria Lourenço, ambos do lugar de Tarei. António Gomes dos Santos foi o único que não permaneceu em Souto e iria casar em S. Vicente Pereira, onde permaneceu até ao fim da sua vida, deixando filhos e netos.
A segunda filha do casal, seria Ana Maria Gomes dos Santos, que nasceu a 17 de Novembro de 1885 e seria baptizada a 22 de Novembro de 1885 pelo referido presbítero Domingos Francisco de Assunção, na Igreja paroquial de S. Miguel de Souto. Ana Maria casou aos 21 anos de idade com Sebastião Ferreira dos Santos, no dia 27 de Dezembro de 1906, na Igreja paroquial de Souto. Viria falecer a 12 de Agosto de 1969, na freguesia de Souto.

O bisneto Albino do Nicolau, o Rei dos Cantadores ao Desafio
Foi considerado no seu tempo um dos maiores poetas populares do Norte e Centro de Portugal. Baseado na tradição oral portuguesa, a sua obra perdeu-se em grande parte no esquecimento. Cantador ao desafio, Albino do Nicolau era um homem instruído, estudioso e autodidacta, sendo considerado pela geração mais nova como “o rei dos cantadores” e, provavelmente, o maior representante do género ramaldeira, um género de canto compassado, cujo nome deriva de Ramalde, no Porto, e seria o género de disputa cantada entre as lavadeiras daquela freguesia. A recolha da sua obra mereceu uma especial atenção por parte do historiador Levy Moreira da Costa, autor do livro “Memórias dos Tempos Idos”.
Albino Gomes dos Santos, de seu nome, herdou do seu bisavô o apelido de Nicolau, tendo nascido no Lugar da Espinheira, em Souto, no dia 5 de Março de 1883. A sua fama ia do Minho ao Centro do País, e do litoral ao interior, com especial incidência no Douro Litoral e nas Beiras. Albino do Nicolau viria a falecer em 3 de Julho de 1954, com 71 anos de idade, deixando seis filhos e numerosos netos. Tinha casado em 5 de Fevereiro de 1911 com Maria da Silva Marques, de 26 anos, filha de João da Silva Marques, de Travanca, e de Margarida Joaquina de Jesus, de Souto. A sua descendência ultrapassa hoje largamente a centena de elementos, muitos dos quais residentes em Souto, Mosteirô, Rio de Janeiro e Paris.
Em 1 de Julho de 1995, Albino do Nicolau foi justamente homenageado pelo presidente da Câmara Municipal da Feira, numa cerimónia que contou com a presença de cerca de 600 pessoas e em que foi inaugurada uma rua que perpetua o nome do poeta, justamente o local onde morava em Badoucos, Souto. Da homenagem constou ainda um Festival de cantares ao desafio que contou com a participação de nomes bastante conhecidos dessa época tais como Valdemar Silva, Manuel Abraão, João Magalhães, Américo Ferreira, Basílio Costa e Augusto Caseiro, acompanhados à viola braguesa por António Barbosa, ao violão Por Dionísio e à concertina por Florindo.
Já atingiu as muitas centenas de descendentes do Clã dos Nicolaus de Souto. O progenitor de toda esta linhagem Nicolau Gomes veria o seu nome chegar até aos nossos dias. Assim, o apelido de Nicolau foi passando de geração em geração e já vai, pelo menos, na sexta geração com gente nos quatro cantos do Mundo.

















