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Uma família da Terra de Santa Maria

Apresentação de Ana Andreia de Bastos

“Boa tarde a todos: Sr. Presidente da Câmara José Emídio, Padre Zé Carlos, boa tarde a todos os familiares e amigos e obrigada pela vossa presença.

Quero começar por agradecer ao Acácio o convite, que muito me lisonjeia e principalmente quero agradecer-lhe o privilégio de poder transmitir aos meus filhos a herança da história dos nossos antepassados, das nossas raízes.

Não são histórias de reis, são histórias de homens e mulheres simples, de lavradores, são histórias muito especiais para mim, porque são sobre a minha família!

Este livro é uma oportunidade de revisitação e encontro com o passado, com os valores e vivências de várias gerações. É um livro que nos transporta para um passado longínquo e tão diferente dos dias de hoje e que apesar de relatar um contexto distante me deixa saudade de uma época que não vivi.

Claustros do convento dos Lóios, onde foi feita a apresentação do livro

Os acontecimentos históricos cruzam-se com a história da família

Antes de entrar em considerações mais pessoais acerca do «Fazedor de armenhas», quero sublinhar a forma interessante como o autor cruza os acontecimentos históricos mais relevantes, tais como as pestes e invasões francesas, entre outros, com a história da família nas sucessivas gerações. O que nos ajuda a ter um panorama completo e a contextualização histórica imprescindível para a compreensão das histórias.   

Entre muitos pensamentos que se afloravam durante a leitura havia um pensamento que esteve sempre presente e foi o facto de concluir que em Mosteirô somos todos primos uns dos outros. O livro começa com a história de Sebastião Alves a quem se sucedem muitos descendentes de sobrenome Silva, Pereira, Santos, Correia, Andrade, Nicolau, entre outros. Como eram poucos os habitantes da aldeia através do casamento criavam laços entre si. O que nos permite concluir que os habitantes de Mosteirô são uma grande família num grau mais ou menos próximo, somos todos parentes uns dos outros.

Albert Camus diz: «Cada homem tem que descobrir a sua casa» sendo que casa não é no sentido literal da palavra, querendo dizer que cada um de nós deve descobrir-se a si próprio, deve fazer o caminho de encontro com o seu passado e presente. E as histórias relatadas neste livro sobre as gerações passadas são como um encontro com o passado que se faz sentir presente.

José Tolentino de Mendonça acrescenta que «Nós somos a nossa casa.» E neste processo de descoberta o livro tornou-se valioso, porque fala sobre os valores e as formas de vida dos meus antepassados, aproximando-me de uma época distante.

Os campos, a terra e a água

Os campos, as sementeiras, as gerações de lavradores dedicados à terra, ao sustento e proveito que dela tiravam. As casas que habilmente construíram, de acordo com as necessidades e o agregado familiar, as armenhas…, são histórias de uma simplicidade genuína e manifesta do estilo de vida da época. São o nosso património, a nossa herança, que nunca devemos esquecer e assim saberemos sempre onde é a nossa casa.

O livro também nos ajuda a perceber e a construir a nossa casa, nele encontramos as pedras e fundações que estão na base da construção de cada um de nós.

Muitas das histórias relatadas no livro fazem-me lembrar o meu avô Germano. Os relatos dos serões invernosos na casa da avó Linda fazem-me lembrar o meu avô à lareira.

Compreendi melhor o valor e o significado de campo, de terra e de água. Compreendi melhor o significado que o meu avó atribuía ao campo que herdou em Agoncida e ao facto de nunca o deixar ao abandono. Compreendi melhor o facto de fazer questão de o cultivar e vindimar.

Mesmo quando as forças eram poucas ele insistia no valor das vinhas e chamava os netos para o ajudar. Foram dias que os primos nunca mais esquecerão.

O valor da terra e da água, o valor do trabalho e da palavra são ensinamentos que quero perpetuar através dos meus filhos, são a melhor herança dos meus antepassados. São os ensinamentos que os meus avós herdaram e que passaram de geração em geração, como tão bem relata este livro.

Gustav Jung escreveu que «O importante não é ser perfeito, é ser inteiro.» E conhecer as minhas, as nossas raízes tornou-me mais consciente, mais inteira.

As nossas raízes são a nossa casa

E a nossa casa é como uma raiz, que de forma orgânica vai crescendo em profundidade na terra e alimentando-se da água. A terra é a nossa família e a água são os nossos afectos.

E a história da minha família, narrada neste livro é como uma raiz profunda de uma árvore que nasceu e cresceu em Mosteirô e que continua viva dispersando sementes pelo mundo inteiro.

21 de Maio, de 2021

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A origem do Clã dos Nicolaus de Souto

Foi na Procissão das Fogaceiras de há 220 anos, na alvorada do século XIX, que Nicolau Gomes, de 26 anos de idade, viria a conhecer Rosa Maria, de 20 anos, com quem se iria a casar e constituir uma família que aumentava ao longo das décadas seguintes e vai perdurar até aos dias de hoje, transformando-se no que poderíamos apelidar de Clã dos Nicolaus de Souto.

Nicolau Gomes era natural do Lugar de Tarei, da freguesia de Travanca, enquanto Rosa Maria tinha vindo à festa na Vila da Feira com a sua família oriunda de Santa Maria de Lamas. Quando se conheceram, logo combinaram encontrarem-se, sempre que possível, na Feira dos Vinte, que durante muitos anos se realizava junto ao Castelo e que mais tarde passou a ser organizada no sítio do Rossio.

O namoro foi prosseguindo até que, no ano seguinte, tenham decidido se unirem pelos laços do matrimónio. Foi um casamento com grande impacto na época. Aconteceu no dia 3 de Junho de 1801, na antiga Igreja Matriz de Souto, actualmente denominada Capela de Nossa Senhora do Parto.

Conta o pároco da Igreja de Souto, no respectivo registo, que após terem sido feitas as denunciações do costume em Souto e Santa Maria de Lamas e sem haver impedimento algum, compareceram “na presença de mim João José da Maia Reitor e das testemunhas abaixo assinadas Caetano José Maria Leal, do Padrão, e Francisco de Assunção, do lugar de S. Gião, ambos desta freguesia de Souto”, e se receberam como marido e mulher, a saber:

“Nicolau Gomes, filho legítimo de Manuel Gomes e Maria Ferreira, do Lugar de Tarei, freguesia de Travanca, neto paterno de José Gomes e Isabel Ferreira, do Lugar do Lameiro, da dita freguesia, e neto materno de Manuel Godinho e Maria Fernandes, do Lugar de Tarei, da freguesia de Souto, e

Rosa Maria de Jesus, filha legítima de Baltazar Coelho e Mariana de Oliveira, do Lugar do Morouço, freguesia de Lamas, neta paterna de Cosme Coelho e Catarina Pinheiro, do Lugar da Torre, a dita freguesia de Lamas, e neta materna de Clemente de Oliveira e Baptista Leite, do Lugar da Venda Nova, freguesia de Lourosa, todos da comarca da Feira, bispado do Porto.”

Foi uma cerimónia muito concorrida, pois não só contou com a presença de muita gente da freguesia de Souto que queria assistir ao evento, como tinha vindo uma comitiva numerosa de Travanca, de Santa Maria de Lamas e de Lourosa, com familiares e amigos dos noivos e dos seus pais.

Antiga Igreja Matriz de Souto, foto de Ana Maria Marques

O casal vai-se instalar no Lugar do Padrão

Nicolau e Rosa Maria foram-se instalar no Lugar do Padrão, onde desenvolveram a actividade agrícola e viam a família crescer ao longo dos anos que se seguiram. Tiveram 10 filhos. Dois anos após o casamento, a 2 de Novembro de 1803, nasceu a primeira filha, para quem escolheram o nome de Maria. Em Novembro de 1806, Rosa Maria daria à luz a sua segunda filha, Ana, que mais tarde seria mãe de Jacinto Gomes, o qual iria dar continuidade ao nome dos Nicolaus. O primeiro filho varão do casal, António, veio a nascer no dia 11 de Abril de 1809. Quatro anos depois, em Abril de 1813, nasceria o segundo rapaz a quem foi dado o nome de Francisco. Infelizmente, este viria a falecer prematuramente, ainda muito novo.

Depois dele iriam nascer mais quatro rapazes a quem deram os nomes de Manuel, José, Jacinto e Francisco, que ficaria com o nome do irmão falecido. Este filho não teve melhor sorte, uma vez que faleceu quatro anos depois do nascimento. Finalmente, já na casa dos quarenta, o casal iria trazer ao Mundo mais duas raparigas: a primeira a 28 de Julho de 1821, a que deram o nome de Joaquina, e a segunda de nome Joana que nasceria a 22 de Agosto de 1825.

Curiosamente, já tinha havido um outro Nicolau Gomes na região, embora não se conheça qualquer relação familiar entre ambos. Esse tal Nicolau Gomes nasceu no século XVII e viveu durante várias décadas do século XVIII na casa da família, no Lugar da Murtosa, na quinta hoje denominada do Ratão. Mas uma sua irmã de nome Maria Gomes iria casar em 1690 no Lugar de Macieira, da freguesia de Souto, com o Licenciado António de Pinho Oliveira. É sempre possível que alguém tenha ouvido falar do nome de Nicolau e o achasse adequado para dar a um filho seu.

A família de Nicolau Gomes e Rosa Maria foi crescendo ao longo dos anos, os filhos foram formando as suas próprias famílias e, por sua vez, foram dando ao Mundo os seus próprios filhos e netos, sempre continuando a viver na freguesia de S. Miguel de Souto, na sua maioria.

Registo do casamento de Nicolau Gomes com Rosa Maria de Jesus

Juntos até que a morte os levou

Nicolau Gomes e Rosa Maria formavam certamente um casal muito unido, trabalhando a terra e criando os seus filhos ao longo dos anos, vendo crescer alguns dos seus netos.

Ficaram juntos até ao fim e faleceram quase em simultâneo, somente com um intervalo de apenas três dias. Primeiro seria a vez de Rosa Maria, que faleceu no dia 20 de Janeiro de 1843, com 62 anos de idade, e logo de seguida deu-se o desenlace de Nicolau Gomes, no dia 23 de Janeiro de 1843, aos 69 anos de idade.

Não se conhecem as circunstâncias deste falecimento quase ao mesmo tempo, mas certamente a doença que os vitimou terá sido contraída praticamente em simultâneo, tanto mais que iriam fazer igualmente em conjunto um testamento em que deixavam parte das casas e dos campos ao filho Manuel que vivia com eles.

O relato do seu falecimento é feito pelo reitor da Igreja de Souto, João José da Maia, que conta no respectivo registo que “Rosa Maria mulher de Nicolau Gomes, do lugar do Padrão, desta freguesia de Souto de idade de 62 anos, faleceu da vida presente, com todos os sacramentos, aos 20 de Janeiro de 1843; fez um testamento de consenso com o seu marido Nicolau Gomes, com que deixam o seu aposento de casa e campo ao seu Filho Manuel (…) com as obrigações seguintes: que os seus corpos serão envoltos em hábitos de paramentos pretos, em cima dos seus caixões, e acompanhados de casa até à sepultura (…) e se digam quinze missas pela alma de cada um”. Foram sepultados no Adro da antiga Igreja Matriz, actualmente Capela da Senhora do Parto.

O casamento do neto Jacinto em Souto

32 anos mais tarde, corria ao ano de 1875, vamos encontrar o casamento de Jacinto Gomes, um dos muitos netos de Nicolau Gomes, que iria dar continuidade ao nome dos Gomes, de Souto, e ao apelido do Nicolau que acompanha todos os seus descendentes. No dia 9 de Novembro, na nova Igreja Matriz de S. Miguel de Souto, Jacinto iria casar-se aos 31 anos de idade com Joana Maria de Oliveira, de 28 anos, lavradora do Lugar da Espinheira.

Conta o padre Domingos Francisco de Assunção que o enlace matrimonial teve como testemunhas “Manuel Domingos da Mota, casado, de profissão lavrador e morador no Lugar do Ferral, e Manuel Pereira Leal da Silva, casado, de profissão lavrador e morador no Lugar de Pousada, ambos desta freguesia. E para constar lavrei em duplicado este assento e depois de lido e conferido pelos cônjuges e testemunhas.”

O casal Jacinto e Joana vai viver para o Lugar da Espinheira e dedicar-se à actividade agrícola. Jacinto Gomes e Joana Maria de Jesus tiveram cinco filhos: Manuel Gomes dos Santos, Maria Rosa Gomes dos Santos, conhecida como a “Velhinha”, António Gomes dos Santos, Albino Gomes dos Santos e Ana Maria Gomes dos Santos, todos nascidos no referido lugar da Espinheira.

Casamento de Jacinto Gomes com Joana Maria de Oliveira

Muitos bisnetos de Nicolau Gomes

É praticamente impossível seguir o rasto de todos os descendentes de Nicolau Gomes quer mesmo em Souto quer noutras terras para onde tenham ido viver os filhos, os netos e bisnetos ao longo dos anos e das décadas. Assim fomos seguir a linhagem de Jacinto Gomes e de alguns dos seus descendentes mais directos que nasceram em Souto.

O primeiro bisneto de Nicolau Gomes aqui referido é o filho mais velho de Jacinto Gomes e de Joana Maria de Oliveira, Manuel Gomes dos Santos (na foto de cima, junto à Igreja Matriz), que nasceu no dia 10 de Dezembro de 1876 e foi baptizado no dia 14 de Dezembro desse ano. Teve como padrinho José de Oliveira, solteiro, jornaleiro, e como madrinha Maria Joaquina de Oliveira, solteira, ambos moradores no lugar da Espinheira, segundo conta o reitor Domingos Francisco de Assunção.

Em 25 de Junho de 1903, Manuel Gomes dos Santos casou com Maria Gomes da Silva, na Igreja Paroquial de Souto. Tiveram quatro filhas: Felicidade, Maria, Silvina e Clotilde. Maria Gomes da Silva viria falecer antes do marido, no dia 20 de Julho de 1936. Manuel Gomes, o bisneto mais velho de Nicolau Gomes, por seu turno teria uma vida longa, vindo a falecer no dia 6 de Outubro de 1971, com quase 95 anos de idade.

Quanto à primeira filha do casal, Maria Rosa Gomes dos Santos, nasceu no dia 23 de Julho de 1878, no lugar da Espinheira, sendo baptizada no dia 25 de Julho do mesmo ano, pelo presbítero Domingos Francisco de Assunção. Teve como padrinho José de Oliveira, lavrador, e como madrinha Rosa Maria de Oliveira, casada, do lugar do Ribeiro. Nunca chegaria a casar, tendo sido governanta na Casa da “Joaninha”. Era carinhosamente conhecida como a “Velhinha”, tendo falecido na freguesia de Souto aos 76 anos de idade, a 10 de Setembro de 1954. (Em cima na foto ao centro)

Já o filho António, nasceria a 4 de Dezembro de 1880 e seria baptizado no dia 30 de Dezembro do mesmo ano. Teve como padrinho Jacinto Soares Calçada e como madrinha Maria Lourenço, ambos do lugar de Tarei. António Gomes dos Santos foi o único que não permaneceu em Souto e iria casar em S. Vicente Pereira, onde permaneceu até ao fim da sua vida, deixando filhos e netos.

A segunda filha do casal, seria Ana Maria Gomes dos Santos, que nasceu a 17 de Novembro de 1885 e seria baptizada a 22 de Novembro de 1885 pelo referido presbítero Domingos Francisco de Assunção, na Igreja paroquial de S. Miguel de Souto. Ana Maria casou aos 21 anos de idade com Sebastião Ferreira dos Santos, no dia 27 de Dezembro de 1906, na Igreja paroquial de Souto. Viria falecer a 12 de Agosto de 1969, na freguesia de Souto.

Albino do Nicolau e Maria Silva Marques com a filha Rosa e netos

O bisneto Albino do Nicolau, o Rei dos Cantadores ao Desafio

Foi considerado no seu tempo um dos maiores poetas populares do Norte e Centro de Portugal. Baseado na tradição oral portuguesa, a sua obra perdeu-se em grande parte no esquecimento. Cantador ao desafio, Albino do Nicolau era um homem instruído, estudioso e autodidacta, sendo considerado pela geração mais nova como “o rei dos cantadores” e, provavelmente, o maior representante do género ramaldeira, um género de canto compassado, cujo nome deriva de Ramalde, no Porto, e seria o género de disputa cantada entre as lavadeiras daquela freguesia. A recolha da sua obra mereceu uma especial atenção por parte do historiador Levy Moreira da Costa, autor do livro “Memórias dos Tempos Idos”.

Albino Gomes dos Santos, de seu nome, herdou do seu bisavô o apelido de Nicolau, tendo nascido no Lugar da Espinheira, em Souto, no dia 5 de Março de 1883. A sua fama ia do Minho ao Centro do País, e do litoral ao interior, com especial incidência no Douro Litoral e nas Beiras. Albino do Nicolau viria a falecer em 3 de Julho de 1954, com 71 anos de idade, deixando seis filhos e numerosos netos. Tinha casado em 5 de Fevereiro de 1911 com Maria da Silva Marques, de 26 anos, filha de João da Silva Marques, de Travanca, e de Margarida Joaquina de Jesus, de Souto. A sua descendência ultrapassa hoje largamente a centena de elementos, muitos dos quais residentes em Souto, Mosteirô, Rio de Janeiro e Paris.

Em 1 de Julho de 1995, Albino do Nicolau foi justamente homenageado pelo presidente da Câmara Municipal da Feira, numa cerimónia que contou com a presença de cerca de 600 pessoas e em que foi inaugurada uma rua que perpetua o nome do poeta, justamente o local onde morava em Badoucos, Souto. Da homenagem constou ainda um Festival de cantares ao desafio que contou com a participação de nomes bastante conhecidos dessa época tais como Valdemar Silva, Manuel Abraão, João Magalhães, Américo Ferreira, Basílio Costa e Augusto Caseiro, acompanhados à viola braguesa por António Barbosa, ao violão Por Dionísio e à concertina por Florindo.

Já atingiu as muitas centenas de descendentes do Clã dos Nicolaus de Souto. O progenitor de toda esta linhagem Nicolau Gomes veria o seu nome chegar até aos nossos dias. Assim, o apelido de Nicolau foi passando de geração em geração e já vai, pelo menos, na sexta geração com gente nos quatro cantos do Mundo.

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Souto no tempo do Marquês de Pombal

A situação de Souto no tempo do Marquês de Pombal está espelhada no relato do padre Manuel Álvares da Mota, datado de 1758, logo após o Terramoto de 1755 que destruiu grande parte de Lisboa.

Em 1758 foram realizados inquéritos paroquiais em todo o território nacional que nos dão conta da situação existente em todas as regiões, concelhos e freguesias do Continente. O relatório das Memórias Paroquiais de Souto, foi levado a cabo pelo pároco da época Manuel Álvares da Mota que apresentou as respostas que aqui publicamos a seguir.

Na realidade, este inquérito tinha como principal finalidade apurar sobre todas as questões económicas e reservas que pudessem ser aproveitadas pelo País, mas também sobre as questões geográficas e históricas de cada uma das localidades das Terras de Santa Maria e das outras regiões do País.

Na foto pode-se ver a Igreja paroquial de Souto a qual, naquele século, correspondia à Capela de Nossa Senhora do Parto dos dias de hoje. Só quase um século depois é que surgiria a actual Igreja Matriz. (Foto de Maria Marques)

As respostas sobre o passado são limitadas e não ajudavam a conhecer as pessoas mais importantes ou personagens históricas que tinham estado ligadas à História de Souto. Não falam nomeadamente sobre um dos vultos da época, o padre Jorge Dinis de Figueiroa, que mandou construir a Capela de Nossa Senhora da Guia, foi capelão da Corte de D. Manuel I e tesoureiro da capela da Imperatriz D. Isabel e que em 30 de Janeiro de 1526 fez parte do séquito que acompanhou Isabel de Portugal para o seu casamento com o Imperador Carlos V.

Porventura, serão lacunas naturais que mostram que os conhecimentos daquela época não eram transmitidos de geração em geração, mas que, felizmente, hoje em dia é possível recuperar graças aqueles que procuram preservar a nossa memória antiga comum.

O que foram as Memórias Paroquiais

As Memórias Paroquiais de 1758 são o resultado de um inquérito realizado a todas as 4071 paróquias que existiam naquele momento em Portugal continental. O inquérito teve lugar em 1758, três anos após o sismo de Lisboa de 1755, e foi mandado executar pelo próprio Marquês de Pombal, um homem à frente do seu tempo, com o intuito de obter um retrato fiel do País. O questionário foi enviado a todos os bispos das dioceses do reino, para que fossem respondidos pelos seus párocos e remetidas as respostas à Secretaria de Estado dos Negócios do Reino.

A tarefa de proceder à organização das respostas de todos os documentos coube inicialmente ao Padre Luís Cardoso, sendo concluída em 1832, já depois do seu falecimento, altura em que se terá completado o índice de todas as respostas aos inquéritos recebidos.

As Memórias Paroquiais inserem-se num esforço de realização de inquéritos sobre o território, que vinha do começo do século XVIII. A sua execução continua o trabalho do Padre Luís Cardoso que, entre 1747 e 1751, publicou dois volumes do seu Dicionário Geográfico, que ficou incompleto.

O projecto é retomado em 1758, com apoio do governo do Marquês de Pombal, sendo o questionário de base ampliado e dividido em 3 partes, contendo perguntas sobre a paróquia, a serra e o rio. O inquérito era dirigido aos párocos e a qualidade das respostas é muito diferenciada, dependendo do empenho e da capacidade de cada um dos eclesiásticos. A documentação é composta por 44 volumes manuscritos, compreendendo as respostas dos párocos e os resumos relativos a um conjunto de paróquias para as quais não existem “memórias”.

O inquérito realizado pelos padres das respectivas paróquias com um vasto conjunto de perguntas sobre diversas matérias estava dividido em três partes: sobre as terras, sobre as serras e sobre os rios. As respostas sobre a actualidade da época são bastante circunstanciadas mas sobre a História passada são pouco consistentes, não só em Souto mas também noutras freguesias.

O que dizem as respostas do padre Manuel Mota

Parte I: O que se procurava saber sobre as terras

  • Em que província fica, a que bispado, comarca, termo e freguesia pertence. Fica na Província da Beira, Bispado do Porto, comarca da Vila da Feira e Termo da Feira, freguesia de São Miguel de Souto.
  • Se é d’el-Rei, ou de donatário, e quem o é ao presente. É terra de infantado e ao presente pertence ao infante D. Pedro.
  • Quantos vizinhos tem, e o número de pessoas. Tem 252 vizinhos (casas) que perfazem o número de 755 pessoas.
  • Se está situada em campina, vale, ou monte e que povoações se descobrem dela, e quanto distam. Está situada entre montes e confina com a freguesia de S. Cristóvão de Ovar, com a de Santa Maria de Válega que dista desta uma légua, com a de S. Vicente Pereira que confina com esta, com a de Santo André de Mosteirô que confina com esta, com a de S. Martinho de Escapães que dista desta um quarto de légua, com a de S. Salvador de Fornos que confina com esta, com a de S. Nicolau, da Vila da Feira, que confina com esta, e com a de Santiago de Espargo que dista desta um quarto de légua.
  • Se tem termo seu, que lugares, ou aldeias compreende, como se chamam, e quantos vizinhos tem. Não tem termo e é do Termo da Vila da Feira
  • Se a Paróquia está fora do lugar, ou dentro dele, e quantos lugares, ou aldeias tem a freguesia, e todos pelos seus nomes. A Igreja Paroquial está no meio da freguesia e tem vinte e quatro lugares ou aldeias que são as seguintes: Tarei, Junto, Teobalde, Alcance, Fijô, Cabomonte, Espinheira, Areosa, Padrão, Vale Rico, Gesteira, S. Silvestre, Área Pedrinha, S. Gião, Macieira, Corga e Rial, Morgado, Pardieiro, Serrado, Ribeiro Souto, Salgueiral, Badoucos, Ferral e Pousada.
  • Qual é o seu orago, quantos altares tem, e de que santos, quantas naves tem; se tem Irmandades, quantas e de que santos. O orago desta freguesia é S. Miguel, tem quatro altares, um de S. Miguel, outro de Nossa Senhora do Rosário, outro de Nossa Senhora da Conceição e outro do Santíssimo Sacramento. E tem uma nave e uma Irmandade do Mártir S. Sebastião.
  • Se o Pároco é cura, vigário, ou reitor, ou prior, ou abade, e de que apresentação é, e que renda tem. O pároco é Reitor e lhe depositam a renda que são quarenta mil reis e mais o que é do pé do altar, o que tudo poderá chegar a cento e cinquenta, sessenta ou setenta mil reis.
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  • Se tem algumas ermidas, e de que santos, e se estão dentro ou fora do lugar, e a quem pertencem. Tem uma Ermida intitulada de Nossa Senhora da Guia, no Lugar de Tarei e pertence à freguesia.
  • Se acode a elas romagem, sempre, ou em alguns dias do ano, e quais são estes. Acode a ela uma romagem no dia da sua festa que é no dia 8 de Setembro.
  • Quais são os frutos da terra que os moradores recolhem com maior abundância. Os frutos da terra com maior abundância são Milho.
  • Se tem juiz ordinário, etc., câmara, ou se está sujeita ao governo das justiças de outra terra, e qual é esta. Não tem Juiz Ordinário nem Comarca e está sujeita à Vila da Feira.
  • Se é couto, cabeça de concelho, honra ou beetria. Não é couto, cabeça de concelho e nada mais. 
  • Se há memória de que florescessem, ou dela saíssem, alguns homens insignes por virtudes, letras ou armas. Deste nada consta. (Esta resposta é manifestamente insuficiente, o que mostra o pouco conhecimento da época)
  • Se tem feira, e em que dias, e quanto dura, se é franca ou cativa. Não tem feira. 
  • Se tem correio, e em que dias da semana chega, e parte; e, se o não tem, de que correio se serve, e quanto dista a terra aonde ele chega. Não tem correio mas serve-se do da Vila da Feira, e dista um quarto de légua e chega à sexta-feira de manhã, e neste mesmo dia parte para o Porto. E do Porto chega à dita vila ao domingo, e nesse mesmo dia parte para Lisboa. 
  • Quanto dista da cidade capital do bispado, e quanto de Lisboa, capital do Reino.Dista desta cidade capital do Bispado cinco léguas e de Lisboa capital do Reino quarenta e sete léguas.

Parte III: O que se procurava saber sobre os rios

  • Como se chama assim, o rio, como o sitio onde nasce. Nesta terra não há rios propriamente rios. Sim há uns regatos que de Verão secam em forma que os moinhos que neles se acham não moem. Principiam um destes na freguesia de Santa Maria de Arrifana e entra nesta e vai meter-se em Ovar e dali até ao mar. 
  • Se nasce logo caudaloso, e se corre todo o ano. Não é caudaloso. Só no tempo da enchentes. E no Estio seca de sorte que nem os moinhos que com ele navegam moem. 
  • Que outros rios entram nele, e em que sitio. Não entram nele outros regatos.
  • Se é navegável, e de que embarcações é capaz. Não é navegável e por isso incapaz de embarcações.
  • Se é de curso arrebatado, ou quieto, em toda a sua distância, ou em alguma parte dela. Não é de curso arrebatado.
  • Se corre de norte a sul, se de sul a norte, se de poente a nascente, se de nascente a poente. Corre de Nascente a Poente.
  • Se cria peixes, e de que espécie são os que traz em maior abundância. Cria trutas, pouca quantidade.
  • Se há nela pescarias, e em que tempo do ano. Não há nele pescarias, só algum curioso no tempo de Verão procura sua truta
  • Se as pescarias são livres ou algum senhor particular, em todo o rio, ou em alguma parte dele. Não é de senhor particular. As pescarias são livres em todo o regato chamado rio.
  • Se se cultivam as suas margens, e se tem muito arvoredo de fruto, ou silvestre. As suas margens cultivam-se e tem muito arvoredo de fruta e perto dele silvestre. 
  • Se têm alguma virtude particular as suas águas. Não tem virtude particular suas águas.
  • Se conserva sempre o mesmo nome, ou começa a ter diferente em algumas partes, e como se chamam estas, ou se há memória que em outro tempo tivesse outro nome. O dito regato ainda conserva o mesmo nome que tinha o qual é do Ralo e não consta que tivesse outro nome.
  • Se morre no mar, ou em outro rio, e como se chama este, e o sitio em que entra nele. Entra no rio de Ovar e vai morrer no mar.
  • Se tem alguma cachoeira, represa, levada, ou açudes que lhe embaracem o ser navegável. Tem levadas e açudes que se seja capaz de navegação de embarcação. 
  • Se tem pontes de cantaria, ou de pau, quantas e em que sítio. No sítio do Ralo do Morgado do Junto tem umas pedras para passagem das gentes e sacramentos por serem caminhos deles.
  • Se tem moinhos, lagares de azeite, pisões, noras ou algum outro engenho. Tem moinhos e nada mais.
  • Se em algum tempo, ou no presente, se tirou ouro das suas areias. Deste não consta que em algum tempo e no presente se tirasse ouro das suas areias.
  • Se os povos usam livremente as suas águas para a cultura dos campos, ou com alguma pensão. Os povos usam livremente as suas águas para cultura dos campos sem pensão.
  • Quantas léguas tem o rio, e as povoações por onde passa, desde o seu nascimento até onde acaba. Não tem mais que duas léguas de curso e as povoações por onde passa são Santo André de Mosteirô, São Salvador de Fornos e Ovar.
  • E qualquer coisa notável, que não vá neste interrogatório. E quanto ao outro regato entra no Lugar de Pousada e vai sempre no rio de Ovar e de Ovar vai morrer no mar e não tem mais que moinhos e suas levadas e não é capaz de navegação.
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Os Tremoceiros de Souto

Foi emigrante no Rio de Janeiro, António Alves, o filho mais velho dos Tremoceiros de Souto, onde permaneceu durante muitos anos, deixando uma vasta descendência, de quatro filhos, quatro filhas e 27 netos e netas, a maioria vivendo no Brasil.

Conhecido como António Tremoceiro, nasceu em Souto no dia 24 de Março de 1899, dez meses depois do casamento dos seus pais, José Alves e Maria Joaquina de Jesus, do Lugar do Ferral. Era o primeiro filho do casal e isso constituiu naturalmente um motivo de grande alegria.

Ainda em Souto, casou com Maria Glória Correia, do lugar de Tarei, no dia 1 de Maio de 1924 e, anos mais tarde, partiu para o Brasil à procura do eldorado que constituía, naquela altura, aquele grande país da América do Sul.

Este casamento duraria 20 anos e em Abril de 1944 seria decretada a separação judicial do casal, com a partilha dos bens comuns, por decisão do Tribunal Cível da Comarca de Vila da Feira. Após a separação, António Alves iria viver na antiga casa dos pais, no Lugar do Ferral, ao lado da casa da irmã Isaura.

Com o andar dos anos, António começou a padecer de uma enfermidade que o impedia de fazer uma vida normal. Foi nessa altura que deixou a freguesia de Souto e foi viver para casa da irmã mais nova, Maria da Glória de Jesus, e do seu cunhado, Avelino de Carvalho Assis, no Lugar das Presas, na freguesia de Mosteirô.

Segundo nos conta a sua neta Rosa Canedo, a viver no Rio de Janeiro, o avô António Tremoceiro teve oito filhos, sendo quatro homens e quatro mulheres. Os quatro filhos e duas das filhas emigrariam para o Brasil, uma parte dos quais vivendo no Rio de Janeiro onde constituíram família.

Tendo ficado cego prematuramente, António Alves, já com 83 anos de idade, viria a falecer no dia 27 de Junho de 1982 na casa da irmã e do cunhado, no lugar das Presas, e seria sepultado no Cemitério de Souto. Dois dos seus filhos vieram assistir ao seu velório em casa dos parentes, sendo recebidos pelos seus primos Avelino de Carvalho Assis e Benjamim de Carvalho Assis, que organizaram a cerimónia, tendo acompanhado o funeral até Souto. Avelino Carvalho conta o seguinte: “eu só conheci esses dois primos no dia do funeral do meu tio António que vivia em casa dos meus pais, mas sei que tenho muitos primos no Brasil que nunca cheguei a conhecer”.

António Tremoceiro deixou uma vasta descendência, espalhada pelo Brasil e Portugal. Para além dos filhos e filhas, segundo nos conta a sua neta Rosa Canedo, o avô António teve ainda 27 netos , sendo 15 netas e 12 netos. A maioria vive no Brasil. Alguns dos netos que nasceram no Brasil e agora moram em Portugal, vieram para cá depois de os pais regressarem a Portugal.

Nascida em Portugal, a própria neta Rosa conta-nos que foi para o Rio de Janeiro ainda muito jovem, com 13 anos de idade, numa altura de grande emigração, acompanhada da mãe e de cinco irmãos para irem viver com o pai que já se encontrava no Brasil havia quatro anos. “Voltei a Portugal pela primeira vez em 1981. Fui visitar o meu avô, com a minha mãe. Naquele dia encontrava-se uma Senhora na casa, que a minha mãe falou que era tia dela (Maria da Glória de Jesus). Infelizmente não conheço parentes por parte do meu avô que vivam em Portugal! No Brasil existem duas sobrinhas dele, com que nos damos muito bem e que são filhas do tio Albano, irmão do meu avô, que morreu no Brasil”.

A irmã Maria Tremoceira

A irmã de António Alves, Maria da Glória de Jesus, conhecida em Mosteirô como Maria Tremoceira, foi casar nesta freguesia com Avelino de Carvalho Assis, conhecido como Avelino da Rola, indo morar para o Lugar das Presas.

Tinha nascido oito anos depois do irmão, no dia 1 de Abril de 1907, e foi baptizada na Igreja Paroquial de Souto no dia 5 de Abril, tendo tido como padrinhos gente importante do lugar do Ferral, o conhecido casal José Ferreira de Andrade, tendo como profissão “proprietário”, e Maria Godinho dos Reis.

Casou com 21 anos de idade no Registo Civil de Souto, no dia 30 de Dezembro de 1928, com o referido Avelino Assis, sapateiro de profissão e conhecido animador de teatro e ensaiador de entremeses, peças de teatro de um só acto, muito em voga naquela época em que o entretenimento era um privilégio das grandes cidades e muito raramente chegava às aldeias de Portugal.

Além das terras que cultivava para a produção de milho, legumes e para alimentar as vacas leiteiras que tinha em casa, Maria da Glória ainda arranjava tempo para o comércio de peixe que ia buscar a S. João da Madeira para depois distribuir na freguesia.

Faleceu aos 90 anos de idade, a 15 de Fevereiro de 1998, na sua casa do lugar das Presas e seria sepultada no cemitério de Mosteirô, deixando dois filhos e duas filhas e numerosos netos e bisnetos.

Casamento do filho Avelino com Deolinda Correia

Os pais casaram em Souto

Os pais de António Alves e de Maria da Glória casaram na Igreja paroquial de S. Miguel de Souto no dia 31 de Maio de 1898. Conta o abade Manuel da Silva Ribeiro que, na sua presença, “compareceram os nubentes José Alves e Maria Joaquina de Jesus (…) ele de idade de 28 anos, solteiro, lavrador, natural de S. Martinho da Gândara, concelho de Oliveira de Azeméis, morador na Vila da Feira, filho de Manuel Alves e de Maria de Jesus, naturais da mencionada freguesia; e ela de idade de 32 anos, solteira, tecedeira, natural da freguesia de Santo André de Mosteirô e moradora na de Souto, filha de António Ferreira dos Santos e de Luísa Maria de Jesus, naturais da dita freguesia de Mosteirô; os quais nubentes se receberam por marido e mulher e os uni em matrimónio (…) conforme o rito da Santa Madre Igreja Apostólica Romana”.

Foram testemunhas presentes desta concorrida cerimónia Albino Pereira dos Reis, lavrador, morador no Lugar do Padrão, e o conhecido José Ferreira Serrano, artista, morador no lugar do Ferral, desta freguesia. “E para constar lavrei em duplicado este assento que, depois de ser lido e conferido perante os cônjuges e as testemunhas, comigo o assinam as testemunhas”, acrescenta o padre Manuel Ribeiro.

A origem do apelido e da alcunha

No caso desta família, o nome Tremoceiro parece que surge como uma alcunha mas, apesar de José Alves e Maria Joaquina de Jesus serem conhecidos lavradores e possuírem vastas terras, não se sabe que alguma vez se tenham dedicado ao cultivo de tremoços ou de alguma forma o tenham comercializado.

O apelido Tremoceiro é muito comum em Portugal e no Brasil, havendo centenas de pessoas com esse nome em ambos os países, e vamos mesmo igualmente encontrar muitos outros nos Estados Unidos, em França ou em Inglaterra.

O tremoceiro é a planta cuja semente são os tremoços. A semente, de cor amarela, é geralmente vendida para o fabrico de iogurtes e em Portugal é muito consumida em conserva como petisco ou aperitivo especialmente a acompanhar a cerveja, mas também se encontra nos restantes países de expressão portuguesa.

Existem cerca de 150 espécies classificadas neste género e conhecidas como tremoceiro. A maioria destas espécies tem a propriedade de fixar azoto/nitrogénio nos solos, e muitas são utilizadas como fertilizante natural em zonas agrícolas. Rico em proteínas, existem três espécies de tremoço que são cultivadas na Península Ibérica.

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A Festa de S. Silvestre em Souto

No Sítio de São Silvestre, na Gesteira de Cima, existiu, desde tempos muito antigos, uma Ermida dedicada a este santo e cuja festa atraía multidões das Terras de Santa Maria

A Festa de S. Silvestre realizou-se durante séculos em Souto, junto à antiga Ermida de S. Silvestre e envolvia três concelhos, o de Ovar, da Vila da Feira e de S. Vicente Pereira Jusã que, naqueles tempos, também era um município.

A Ermida de S. Silvestre era o ponto de tangência dos três concelhos e a festa que atraía multidões daquelas bandas tinha particularidades únicas na região e, possivelmente, até em Portugal inteiro. Com efeito, as vereações dos três municípios incorporavam-se, devidamente paramentadas e uniformizadas, na procissão que percorria parte dos três concelhos. Após o desfile, cada uma das vereações ficava acantonada dentro do seu território e assistia ao grande arraial durante toda a tarde.

Esta antiga tradição, que se perdeu nos tempos, realizou-se até ao final do século XVII e, possivelmente, nos primeiros anos do século XVIII, uma vez que ainda em 1708, o Padre António Carvalho da Costa, na sua obra “Corografia Portuguesa”, regista a existência da Ermida de S. Silvestre na paróquia de S. Miguel de Souto.

A Localização da Ermida de S. Silvestre

Pela descrição existente em várias publicações antigas, a Ermida de S. Silvestre, em honra do Papa com o mesmo nome, situava-se do lado da freguesia de Souto, possivelmente no final da actual rua Gesteira de Cima. Em 1758, nas Memórias Paroquiais, o padre Manuel Alves da Mota, já não refere a existência desta ermida, mas refere explicitamente o Lugar de S. Silvestre, como um dos 24 lugares da freguesia.

O final da rua Gesteira de Cima faz divisa com S. Vicente Pereira e S. João de Ovar (esta freguesia, nos séculos anteriores, pertencia à freguesia de S. Cristóvão de Ovar) e seria o ponto de encontro das festividades em honra de S. Silvestre.

Infelizmente, nos dias hoje, é quase impossível encontrar vestígios da Ermida de S. Silvestre a qual, em 1708 ainda aparecia no livro “Corografia Portuguesa” do padre António Carvalho da Costa mas que, por volta de 1720, precisamente há 300 anos atrás já se encontraria em ruínas.

Quem foi o Papa Silvestre I

São Silvestre I foi Papa entre 31 de Janeiro de 314 até 31 de Dezembro de 335, durante o reinado do imperador romano Constantino I, que determinou o fim da perseguição aos cristãos, iniciando-se a Paz na Igreja. Silvestre I foi um dos primeiros santos canonizados sem ter sofrido o martírio.

Silvestre I enviou emissários para presidirem ao sínodo de Arles (314) e ao Primeiro Concílio de Niceia (325), convocados por Constantino, mas a sua ausência que é motivo de debate, provavelmente deve-se ao seu estado de saúde. Durante o seu pontificado a autoridade da Igreja foi estabelecida e construíram-se alguns dos primeiros monumentos cristãos, como a Igreja do Santo Sepulcro em Jerusalém e as primitivas basílicas de Roma (São João de Latrão e São Pedro), bem como das igrejas dos Santos Apóstolos em Constantinopla.

Atribui-se em geral a conversão de Constantino a uma visão que terá tido antes da batalha da ponte de Milvius (ano 312). Mas a tradição medieval, também teria dito que o imperador teria lepra incurável, e logo que Silvestre o baptizou por imersão numa piscina ficou imediatamente curado. Esta versão porém não tem fundamento, pois sabe-se que Constantino foi baptizado ao fim de sua vida, com a intenção de perdoar seus pecados, por Eusébio, bispo de Nicomédia.

O que diz a Grande Enciclopédia Portuguesa e Brasileira

A Grande Enciclopédia Portuguesa e Brasileira conta que antes da construção da Capela de Nossa Senhora da Guia, onde foi sepultado o prior Jorge Dinis de Figueiroa, “existia uma Ermida de S. Silvestre, muito mais antiga, num sítio a que davam o mesmo nome, já abandonada e em ruínas em 1719.” “Nela se realizava uma Festa Anual a que assistiam, por antigo costume, as Câmaras da Feira, Ovar e Pereira Jusã. As respectivas vereações incorporavam-se, uniformizadas, e assistiam ao arraial da tarde cada uma dentro do seu território, porque a ermida era o ponto de tangência dos limites dos três concelhos.” Tomo 30, página 26.

Ao longo dos séculos são várias as referências à Ermida de S. Silvestre e às festas que aí se realizavam. Em 1708, o Padre António Carvalho da Costa, na referida obra “Corografia Portuguesa” conta o seguinte: “São Miguel do Souto, Reitoria da Mitra, e Comenda da ordem de Cristo, tem 140 vizinhos, uma Ermida de Nossa Senhora da Guia e outra de S. Silvestre”.

Posteriormente, em 1758, foi feito um inquérito com 19 temas na Terra de Santa Maria, que envolveu todas as freguesias, denominado Memórias Paroquiais. Em Abril desse ano, o Padre Manuel Alves da Mota, sobre a paróquia de S. Miguel de Souto, destacou o seguinte:

“4º. Está situada entre montes e confina com a freguesia de S. Cristóvão de Ovar, com a de Santa Maria de Válega que dista desta uma légua, com a de S. Vicente Pereira que confina com esta, com a de Santo André de Mosteirô que confina com esta, com a de S. Martinho de Escapães que dista desta um quarto de légua, com a de S. Salvador de Fornos que confina com esta, com a de S. Nicolau, da Vila da Feira, que confina com esta, e com a de Santiago de Espargo que dista desta um quarto de légua.”

“ 6º. A Igreja Paroquial está no meio da freguesia e tem vinte e quatro lugares ou aldeias que são as seguintes: Tarei, Junto, Teobalde, Alcance, Fijô, Cabomonte, Espinheira, Areosa, Padrão, Vale Rico, Gesteira, S. Silvestre, Área Pedrinha, S. Gião, Macieira, Corga e Rial, Morgado, Pardieiro, Serrado, Ribeiro Souto, Salgueiral, Badoucos, Ferral e Pousada”.

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A grande epidemia de 1873 em Souto

Uma grande epidemia assolou o País no ano de 1873. Começou em Braga, foi descendo até Campanhã e chegou às terras da Feira, atingindo fortemente a vizinha freguesia de Mosteirô e com consequências graves em Souto, acabando por chegar à Ilha da Madeira.

A sua passagem por Souto teve repercussões enormes, atingindo um grande número de famílias e uma parte dos lugares da freguesia. Este surto epidémico, de acordo com estudos sobre esta época, teve início no ano anterior, com impacto sobretudo em Braga, foi-se espalhando pelo território, e atinge o seu ponto crítico no Verão de 1873. Os registos não especificam a causa das mortes, mas terá sido um surto de varíola, tifo e disenteria que se abateu sobre a população do Note do País.

Os dados relativos a Souto mostram que já em 1872 se regista um aumento do número de óbitos, que passam dos 27 em 1870 e dos 28 em 1871 para 36 falecimentos registados em 1872. Mas será em 1873 que a epidemia provoca maior número de óbitos, chegando aos 57, mais do dobro de 1870. No ano seguinte, o número desce rapidamente para os 18 indivíduos.

O lugar do Padrão foi aquele em que a epidemia provocou maiores danos, com 14 mortes, com um pico entre Agosto e Outubro de 1873, dos quais 7 eram crianças e 5 pessoas mais idosas. Seguiram-se os lugares do Ferral, de Macieira e de Cabomonte.

Um grande número de famílias da época seria atingido por esta calamidade. Tal foi o caso das famílias Fernandes Leite, Fernandes Assunção, Rodrigues, Reis, Ferreira, Pereira, Oliveira, Marques e Almeida, entre muitas outras.

Este surto epidémico deu-se 5 anos depois da inauguração da actual Igreja Matriz em 1868. A partir desta data, começaram a realizar-se aí todas as cerimónias religiosas, que deixaram de se fazer na Igreja Velha, hoje Capela de Nossa Senhora do Parto. Em 13 de Agosto de 1868, realizou-se assim o primeiro funeral, de Josefa Maria Pereira, de 75 anos, do Lugar da Aldeia, de que o Reitor Domingos Francisco de Assunção fez o registo. Os óbitos ocorridos durante a epidemia de 1873 seriam sepultados no cemitério novo.

O Lugar do Padrão seria o mais atingido pela terrível epidemia de 1873

As condições sanitárias, a alimentação deficiente e a subnutrição

Não foi só em Souto que a crise provocou tantas vítimas. Na segunda metade dos anos de 1800, as crises epidémicas violentas marcaram as populações, com predominância da cólera, febre-amarela (geograficamente limitada), varíola e influenza.

Na década de 1870, ocorreram, um pouco por todo o País, epidemias de tifo exantemático, varíola e disenteria. Por exemplo, em Campanhã foram assinaladas crises médias em 1873, 1876 e 1879. A distribuição mensal dos óbitos nestes anos anormais revelou um pico estivo-outonal, a incidir predominantemente em Agosto, devido ao número máximo de falecimentos de menores.  

Em 1872-1873, a cidade e o termo de Braga, foram também tocados por um dos maiores surtos de varíola. Sofreram esta crise de carácter puramente epidémico cerca de 69.6% das freguesias, incluindo todas as freguesias da urbe, para as quais havia informação, computando-se duas crises maiores e doze fortes. Em 1873, já a perder de intensidade, a erupção fez vítimas nalgumas freguesias do termo de Braga. A distribuição mensal dos óbitos acusou o zénite em torno de Setembro, parecendo sacrificar principalmente os estratos mais jovens da população.

A crise de 1873 em Souto seguiu o padrão encontrado em Braga, com o pico a ter início em Agosto e a durar até Dezembro. E, tal como em Braga, seriam os mais jovens e as pessoas mais vulneráveis a pagar o preço das péssimas condições em que vivia a população das cidades, vilas e aldeias do País, nomeadamente a ausência de condições sanitárias, a contaminação dos poços de abastecimento de água, a alimentação deficiente baseada em couves e batatas e a subnutrição da generalidade das crianças. Dos 57 óbitos ocorridos em 1873, 23 diziam respeito a pessoas com 60 e mais anos, e 21 eram menores de idade, sobretudo crianças com alguns meses de vida.

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Emigração: ei-los que partem…

Foram centenas os soutenses que saíram da terra durante várias décadas do século XX para países distantes como o Brasil ou Venezuela ou para a Europa aqui mais perto. Muitos nunca mais voltaram.

A emigração é um dos aspectos mais marcantes da vida nacional ao longo do século XX, embora já viesse de trás, dos séculos anteriores. Nas décadas de 1920 e 1930, era habitual emigrarem famílias inteiras do Norte de Portugal para as Terras de Vera Cruz, na esmagadora maioria dos casos viajando em condições muito difíceis, no porão dos barcos. O primeiro familiar a chegar ao Rio de Janeiro ou outro porto de acostagem, logo que tivesse encontrado emprego, iria chamar os membros da família.

Foi esse o caso de José dos Santos Reis que, em Agosto de 1928 com trinta e cinco anos de idade, se lançou à aventura brasileira indo para o Rio de Janeiro, e que mandaria chamar o seu irmão mais novo, Américo dos Santos Reis, que realizaria tal viagem em Dezembro de 1930, com 31 anos de idade. José e Américo eram filhos de Manuel dos Santos Reis, natural de Souto, e de Maria Francisca de Resende, natural da Vila da Feira. Eram netos paternos de Salvador dos Santos e de Ana Gomes, e netos maternos de Manuel Francisco Pinto e de Rosa Francisca da Silva.

Família Murteira

Em Agosto de 1928, mais um emigrante de Souto seguiria de barco em direcção às terras do Brasil. Tratou-se, desta vez, de José da Silva Murteira, carpinteiro de profissão, de 30 anos de idade, filho de José da Silva Murteira, de Ovar, e de Maria Alves Ventura Moreira, da Vila da Feira, mas moradores na freguesia de Souto, no Lugar de Cabomonte.

José Murteira, tinha nascido a 16 de Novembro de 1897, dois anos depois do casamento dos seus pais na igreja de S. Cristóvão, em Ovar. Era neto paterno de Manuel da Silva Murteira e de Joana Rosa de Jesus, e neto materno de Vitorino Alves Moreira e de Joana de Jesus. José da Silva Murteira, filho, casou com Rosa da Silva no dia 1 de Junho de 1920, no posto do registo civil de Souto. Veio a falecer em Souto, a 16 de Julho de 1982, com 84 anos de idade.

Emigrantes para França

Manuel da Costa Leite emigrou para França no final de 1930. Filho de João da Costa Leite e de Ana Rosa de Jesus, do Lugar de Badoucos, tinha sido baptizado no dia 25 de Abril de 1897. Era neto paterno de Manuel da Costa e de Maria Rosa e neto materno de Joaquim Manuel d’Almeida e de Maria Rosa. Casou com Margarida Gomes de Resende, no posto do registo civil de Souto, no dia 30 de Outubro de 1919. Viria a falecer, com 77 anos de idade, no dia 23 de Julho de 1974.

Emigrantes para o Brasil

Nasceu no Lugar de Tarei, Souto, Vila da Feira, e seria um dos muitos emigrantes que nas décadas de 1920 e 1930 foram procurar no Brasil melhores condições de vida. Antes de emigrar, Manuel Francisco Rodrigues casou no registo civil de Souto com Rosa Pereira, no dia 25 de Março de 1930, viajando no final desse ano para o Rio de Janeiro.

Manuel Francisco Rodrigues nasceu a 29 de Novembro de 1899, sendo baptizado na Igreja Matriz de Souto a 10 de Dezembro. Filho dos lavradores Manuel da Silva Rodrigues e Maria Rosa da Conceição, era neto paterno de Jacinto Francisco Marques e de Maria Gomes de Jesus, e neto materno de Manuel Fernandes Ribeiro e de Rosa Maria de Jesus. Teve uma longa vida e viria a falecer, com 93 anos de idade, a 19 de Dezembro de 1992 em São João de Ovar.

1142: Primeira referência a Souto

A aldeia ou lugar de Souto surge, em 1142, com a designação de “vila Souto”, numa doação de Godinho Guimarães aos cónegos do Mosteiro de São Salvador de Grijó: “Eu, Godinho Guimarães, dou a vós, cónegos do Mosteiro de São Salvador de Grijó, a minha herdade que tenho na «vila» de Macieira, a saber: metade da herdade de meu avô Bertuflo e a terça parte da herdade de Cid Vermuiz e a herdade de Gonçalo Sarrazino e Frenile em São Jião, ou seja, a sexta parte de toda a «vila». E a terça menos a oitava do casal de Dona Froila. E a meia oitava do casal de Mido… Dou o texto na vila já mencionada a sexta parte inteira das referidas herdades com todos os seus préstimos por onde as puderdes identificar determinadas por seus antigos limites. E começa a divisória na pedra onde chamam Forca del Cid Cavalo e vai ao Louriçal e daí pelo Enxúdrio atravessa o rio de Guandia e vai às pedras sicillatas que estão entre Mosteirô (monasteriolo) e São Jião e torna ao rio, correndo por ele até à extrema do casal de D. Froila onde, deixando o rio, corta para o sul pela Pedra Grande, contornando o monte e o casal de D. Froila o limita com a «vila Souto» e vai à presa da água do moinho de Souto e vai à pedra que está no casal do Mido e Valdemar, daí à espinha do valo que divide Barrela de Macieira e torna ao rio já nomeado no sítio onde entra nele a água de Caritôso e vai por ele até à saída da água e vai aos «báculos» que estão entre Travanca e Macieira e daí pelo valo antigo, incluindo o casal de Patre e Areias, vai ao rio de Palumbos que atravessa para norte e ao moinho velho e continua pelo Rego até onde foi a presa d’água que está entre Frenile e casal da Torre e daí pelo valo que está sobre a Fonte-Cova e daqui à pedra da sobredita Forca de Cid. Ano 1142 (Baio Ferrado).”

Texto de Samaritanos de Souto

No entanto, já anteriormente havia menções explícitas ao Mosteiro de São Miguel, situado na Vila de Azevedo, território que poderá corresponder a uma parte de Souto e talvez uma parte de S. Vicente. De qualquer modo, nos séculos seguintes, S. Miguel passou a ser parte integrante da paróquia de Souto.

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