Souto no tempo do Marquês de Pombal

A situação de Souto no tempo do Marquês de Pombal está espelhada no relato do padre Manuel Álvares da Mota, datado de 1758, logo após o Terramoto de 1755 que destruiu grande parte de Lisboa.

Em 1758 foram realizados inquéritos paroquiais em todo o território nacional que nos dão conta da situação existente em todas as regiões, concelhos e freguesias do Continente. O relatório das Memórias Paroquiais de Souto, foi levado a cabo pelo pároco da época Manuel Álvares da Mota que apresentou as respostas que aqui publicamos a seguir.

Na realidade, este inquérito tinha como principal finalidade apurar sobre todas as questões económicas e reservas que pudessem ser aproveitadas pelo País, mas também sobre as questões geográficas e históricas de cada uma das localidades das Terras de Santa Maria e das outras regiões do País.

Na foto pode-se ver a Igreja paroquial de Souto a qual, naquele século, correspondia à Capela de Nossa Senhora do Parto dos dias de hoje. Só quase um século depois é que surgiria a actual Igreja Matriz. (Foto de Maria Marques)

As respostas sobre o passado são limitadas e não ajudavam a conhecer as pessoas mais importantes ou personagens históricas que tinham estado ligadas à História de Souto. Não falam nomeadamente sobre um dos vultos da época, o padre Jorge Dinis de Figueiroa, que mandou construir a Capela de Nossa Senhora da Guia, foi capelão da Corte de D. Manuel I e tesoureiro da capela da Imperatriz D. Isabel e que em 30 de Janeiro de 1526 fez parte do séquito que acompanhou Isabel de Portugal para o seu casamento com o Imperador Carlos V.

Porventura, serão lacunas naturais que mostram que os conhecimentos daquela época não eram transmitidos de geração em geração, mas que, felizmente, hoje em dia é possível recuperar graças aqueles que procuram preservar a nossa memória antiga comum.

O que foram as Memórias Paroquiais

As Memórias Paroquiais de 1758 são o resultado de um inquérito realizado a todas as 4071 paróquias que existiam naquele momento em Portugal continental. O inquérito teve lugar em 1758, três anos após o sismo de Lisboa de 1755, e foi mandado executar pelo próprio Marquês de Pombal, um homem à frente do seu tempo, com o intuito de obter um retrato fiel do País. O questionário foi enviado a todos os bispos das dioceses do reino, para que fossem respondidos pelos seus párocos e remetidas as respostas à Secretaria de Estado dos Negócios do Reino.

A tarefa de proceder à organização das respostas de todos os documentos coube inicialmente ao Padre Luís Cardoso, sendo concluída em 1832, já depois do seu falecimento, altura em que se terá completado o índice de todas as respostas aos inquéritos recebidos.

As Memórias Paroquiais inserem-se num esforço de realização de inquéritos sobre o território, que vinha do começo do século XVIII. A sua execução continua o trabalho do Padre Luís Cardoso que, entre 1747 e 1751, publicou dois volumes do seu Dicionário Geográfico, que ficou incompleto.

O projecto é retomado em 1758, com apoio do governo do Marquês de Pombal, sendo o questionário de base ampliado e dividido em 3 partes, contendo perguntas sobre a paróquia, a serra e o rio. O inquérito era dirigido aos párocos e a qualidade das respostas é muito diferenciada, dependendo do empenho e da capacidade de cada um dos eclesiásticos. A documentação é composta por 44 volumes manuscritos, compreendendo as respostas dos párocos e os resumos relativos a um conjunto de paróquias para as quais não existem “memórias”.

O inquérito realizado pelos padres das respectivas paróquias com um vasto conjunto de perguntas sobre diversas matérias estava dividido em três partes: sobre as terras, sobre as serras e sobre os rios. As respostas sobre a actualidade da época são bastante circunstanciadas mas sobre a História passada são pouco consistentes, não só em Souto mas também noutras freguesias.

O que dizem as respostas do padre Manuel Mota

Parte I: O que se procurava saber sobre as terras

  • Em que província fica, a que bispado, comarca, termo e freguesia pertence. Fica na Província da Beira, Bispado do Porto, comarca da Vila da Feira e Termo da Feira, freguesia de São Miguel de Souto.
  • Se é d’el-Rei, ou de donatário, e quem o é ao presente. É terra de infantado e ao presente pertence ao infante D. Pedro.
  • Quantos vizinhos tem, e o número de pessoas. Tem 252 vizinhos (casas) que perfazem o número de 755 pessoas.
  • Se está situada em campina, vale, ou monte e que povoações se descobrem dela, e quanto distam. Está situada entre montes e confina com a freguesia de S. Cristóvão de Ovar, com a de Santa Maria de Válega que dista desta uma légua, com a de S. Vicente Pereira que confina com esta, com a de Santo André de Mosteirô que confina com esta, com a de S. Martinho de Escapães que dista desta um quarto de légua, com a de S. Salvador de Fornos que confina com esta, com a de S. Nicolau, da Vila da Feira, que confina com esta, e com a de Santiago de Espargo que dista desta um quarto de légua.
  • Se tem termo seu, que lugares, ou aldeias compreende, como se chamam, e quantos vizinhos tem. Não tem termo e é do Termo da Vila da Feira
  • Se a Paróquia está fora do lugar, ou dentro dele, e quantos lugares, ou aldeias tem a freguesia, e todos pelos seus nomes. A Igreja Paroquial está no meio da freguesia e tem vinte e quatro lugares ou aldeias que são as seguintes: Tarei, Junto, Teobalde, Alcance, Fijô, Cabomonte, Espinheira, Areosa, Padrão, Vale Rico, Gesteira, S. Silvestre, Área Pedrinha, S. Gião, Macieira, Corga e Rial, Morgado, Pardieiro, Serrado, Ribeiro Souto, Salgueiral, Badoucos, Ferral e Pousada.
  • Qual é o seu orago, quantos altares tem, e de que santos, quantas naves tem; se tem Irmandades, quantas e de que santos. O orago desta freguesia é S. Miguel, tem quatro altares, um de S. Miguel, outro de Nossa Senhora do Rosário, outro de Nossa Senhora da Conceição e outro do Santíssimo Sacramento. E tem uma nave e uma Irmandade do Mártir S. Sebastião.
  • Se o Pároco é cura, vigário, ou reitor, ou prior, ou abade, e de que apresentação é, e que renda tem. O pároco é Reitor e lhe depositam a renda que são quarenta mil reis e mais o que é do pé do altar, o que tudo poderá chegar a cento e cinquenta, sessenta ou setenta mil reis.
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  • Se tem algumas ermidas, e de que santos, e se estão dentro ou fora do lugar, e a quem pertencem. Tem uma Ermida intitulada de Nossa Senhora da Guia, no Lugar de Tarei e pertence à freguesia.
  • Se acode a elas romagem, sempre, ou em alguns dias do ano, e quais são estes. Acode a ela uma romagem no dia da sua festa que é no dia 8 de Setembro.
  • Quais são os frutos da terra que os moradores recolhem com maior abundância. Os frutos da terra com maior abundância são Milho.
  • Se tem juiz ordinário, etc., câmara, ou se está sujeita ao governo das justiças de outra terra, e qual é esta. Não tem Juiz Ordinário nem Comarca e está sujeita à Vila da Feira.
  • Se é couto, cabeça de concelho, honra ou beetria. Não é couto, cabeça de concelho e nada mais. 
  • Se há memória de que florescessem, ou dela saíssem, alguns homens insignes por virtudes, letras ou armas. Deste nada consta. (Esta resposta é manifestamente insuficiente, o que mostra o pouco conhecimento da época)
  • Se tem feira, e em que dias, e quanto dura, se é franca ou cativa. Não tem feira. 
  • Se tem correio, e em que dias da semana chega, e parte; e, se o não tem, de que correio se serve, e quanto dista a terra aonde ele chega. Não tem correio mas serve-se do da Vila da Feira, e dista um quarto de légua e chega à sexta-feira de manhã, e neste mesmo dia parte para o Porto. E do Porto chega à dita vila ao domingo, e nesse mesmo dia parte para Lisboa. 
  • Quanto dista da cidade capital do bispado, e quanto de Lisboa, capital do Reino.Dista desta cidade capital do Bispado cinco léguas e de Lisboa capital do Reino quarenta e sete léguas.

Parte III: O que se procurava saber sobre os rios

  • Como se chama assim, o rio, como o sitio onde nasce. Nesta terra não há rios propriamente rios. Sim há uns regatos que de Verão secam em forma que os moinhos que neles se acham não moem. Principiam um destes na freguesia de Santa Maria de Arrifana e entra nesta e vai meter-se em Ovar e dali até ao mar. 
  • Se nasce logo caudaloso, e se corre todo o ano. Não é caudaloso. Só no tempo da enchentes. E no Estio seca de sorte que nem os moinhos que com ele navegam moem. 
  • Que outros rios entram nele, e em que sitio. Não entram nele outros regatos.
  • Se é navegável, e de que embarcações é capaz. Não é navegável e por isso incapaz de embarcações.
  • Se é de curso arrebatado, ou quieto, em toda a sua distância, ou em alguma parte dela. Não é de curso arrebatado.
  • Se corre de norte a sul, se de sul a norte, se de poente a nascente, se de nascente a poente. Corre de Nascente a Poente.
  • Se cria peixes, e de que espécie são os que traz em maior abundância. Cria trutas, pouca quantidade.
  • Se há nela pescarias, e em que tempo do ano. Não há nele pescarias, só algum curioso no tempo de Verão procura sua truta
  • Se as pescarias são livres ou algum senhor particular, em todo o rio, ou em alguma parte dele. Não é de senhor particular. As pescarias são livres em todo o regato chamado rio.
  • Se se cultivam as suas margens, e se tem muito arvoredo de fruto, ou silvestre. As suas margens cultivam-se e tem muito arvoredo de fruta e perto dele silvestre. 
  • Se têm alguma virtude particular as suas águas. Não tem virtude particular suas águas.
  • Se conserva sempre o mesmo nome, ou começa a ter diferente em algumas partes, e como se chamam estas, ou se há memória que em outro tempo tivesse outro nome. O dito regato ainda conserva o mesmo nome que tinha o qual é do Ralo e não consta que tivesse outro nome.
  • Se morre no mar, ou em outro rio, e como se chama este, e o sitio em que entra nele. Entra no rio de Ovar e vai morrer no mar.
  • Se tem alguma cachoeira, represa, levada, ou açudes que lhe embaracem o ser navegável. Tem levadas e açudes que se seja capaz de navegação de embarcação. 
  • Se tem pontes de cantaria, ou de pau, quantas e em que sítio. No sítio do Ralo do Morgado do Junto tem umas pedras para passagem das gentes e sacramentos por serem caminhos deles.
  • Se tem moinhos, lagares de azeite, pisões, noras ou algum outro engenho. Tem moinhos e nada mais.
  • Se em algum tempo, ou no presente, se tirou ouro das suas areias. Deste não consta que em algum tempo e no presente se tirasse ouro das suas areias.
  • Se os povos usam livremente as suas águas para a cultura dos campos, ou com alguma pensão. Os povos usam livremente as suas águas para cultura dos campos sem pensão.
  • Quantas léguas tem o rio, e as povoações por onde passa, desde o seu nascimento até onde acaba. Não tem mais que duas léguas de curso e as povoações por onde passa são Santo André de Mosteirô, São Salvador de Fornos e Ovar.
  • E qualquer coisa notável, que não vá neste interrogatório. E quanto ao outro regato entra no Lugar de Pousada e vai sempre no rio de Ovar e de Ovar vai morrer no mar e não tem mais que moinhos e suas levadas e não é capaz de navegação.

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