Os Tremoceiros de Souto

Foi emigrante no Rio de Janeiro, António Alves, o filho mais velho dos Tremoceiros de Souto, onde permaneceu durante muitos anos, deixando uma vasta descendência, de quatro filhos, quatro filhas e 27 netos e netas, a maioria vivendo no Brasil.

Conhecido como António Tremoceiro, nasceu em Souto no dia 24 de Março de 1899, dez meses depois do casamento dos seus pais, José Alves e Maria Joaquina de Jesus, do Lugar do Ferral. Era o primeiro filho do casal e isso constituiu naturalmente um motivo de grande alegria.

Ainda em Souto, casou com Maria Glória Correia, do lugar de Tarei, no dia 1 de Maio de 1924 e, anos mais tarde, partiu para o Brasil à procura do eldorado que constituía, naquela altura, aquele grande país da América do Sul.

Este casamento duraria 20 anos e em Abril de 1944 seria decretada a separação judicial do casal, com a partilha dos bens comuns, por decisão do Tribunal Cível da Comarca de Vila da Feira. Após a separação, António Alves iria viver na antiga casa dos pais, no Lugar do Ferral, ao lado da casa da irmã Isaura.

Com o andar dos anos, António começou a padecer de uma enfermidade que o impedia de fazer uma vida normal. Foi nessa altura que deixou a freguesia de Souto e foi viver para casa da irmã mais nova, Maria da Glória de Jesus, e do seu cunhado, Avelino de Carvalho Assis, no Lugar das Presas, na freguesia de Mosteirô.

Segundo nos conta a sua neta Rosa Canedo, a viver no Rio de Janeiro, o avô António Tremoceiro teve oito filhos, sendo quatro homens e quatro mulheres. Os quatro filhos e duas das filhas emigrariam para o Brasil, uma parte dos quais vivendo no Rio de Janeiro onde constituíram família.

Tendo ficado cego prematuramente, António Alves, já com 83 anos de idade, viria a falecer no dia 27 de Junho de 1982 na casa da irmã e do cunhado, no lugar das Presas, e seria sepultado no Cemitério de Souto. Dois dos seus filhos vieram assistir ao seu velório em casa dos parentes, sendo recebidos pelos seus primos Avelino de Carvalho Assis e Benjamim de Carvalho Assis, que organizaram a cerimónia, tendo acompanhado o funeral até Souto. Avelino Carvalho conta o seguinte: “eu só conheci esses dois primos no dia do funeral do meu tio António que vivia em casa dos meus pais, mas sei que tenho muitos primos no Brasil que nunca cheguei a conhecer”.

António Tremoceiro deixou uma vasta descendência, espalhada pelo Brasil e Portugal. Para além dos filhos e filhas, segundo nos conta a sua neta Rosa Canedo, o avô António teve ainda 27 netos , sendo 15 netas e 12 netos. A maioria vive no Brasil. Alguns dos netos que nasceram no Brasil e agora moram em Portugal, vieram para cá depois de os pais regressarem a Portugal.

Nascida em Portugal, a própria neta Rosa conta-nos que foi para o Rio de Janeiro ainda muito jovem, com 13 anos de idade, numa altura de grande emigração, acompanhada da mãe e de cinco irmãos para irem viver com o pai que já se encontrava no Brasil havia quatro anos. “Voltei a Portugal pela primeira vez em 1981. Fui visitar o meu avô, com a minha mãe. Naquele dia encontrava-se uma Senhora na casa, que a minha mãe falou que era tia dela (Maria da Glória de Jesus). Infelizmente não conheço parentes por parte do meu avô que vivam em Portugal! No Brasil existem duas sobrinhas dele, com que nos damos muito bem e que são filhas do tio Albano, irmão do meu avô, que morreu no Brasil”.

A irmã Maria Tremoceira

A irmã de António Alves, Maria da Glória de Jesus, conhecida em Mosteirô como Maria Tremoceira, foi casar nesta freguesia com Avelino de Carvalho Assis, conhecido como Avelino da Rola, indo morar para o Lugar das Presas.

Tinha nascido oito anos depois do irmão, no dia 1 de Abril de 1907, e foi baptizada na Igreja Paroquial de Souto no dia 5 de Abril, tendo tido como padrinhos gente importante do lugar do Ferral, o conhecido casal José Ferreira de Andrade, tendo como profissão “proprietário”, e Maria Godinho dos Reis.

Casou com 21 anos de idade no Registo Civil de Souto, no dia 30 de Dezembro de 1928, com o referido Avelino Assis, sapateiro de profissão e conhecido animador de teatro e ensaiador de entremeses, peças de teatro de um só acto, muito em voga naquela época em que o entretenimento era um privilégio das grandes cidades e muito raramente chegava às aldeias de Portugal.

Além das terras que cultivava para a produção de milho, legumes e para alimentar as vacas leiteiras que tinha em casa, Maria da Glória ainda arranjava tempo para o comércio de peixe que ia buscar a S. João da Madeira para depois distribuir na freguesia.

Faleceu aos 90 anos de idade, a 15 de Fevereiro de 1998, na sua casa do lugar das Presas e seria sepultada no cemitério de Mosteirô, deixando dois filhos e duas filhas e numerosos netos e bisnetos.

Casamento do filho Avelino com Deolinda Correia

Os pais casaram em Souto

Os pais de António Alves e de Maria da Glória casaram na Igreja paroquial de S. Miguel de Souto no dia 31 de Maio de 1898. Conta o abade Manuel da Silva Ribeiro que, na sua presença, “compareceram os nubentes José Alves e Maria Joaquina de Jesus (…) ele de idade de 28 anos, solteiro, lavrador, natural de S. Martinho da Gândara, concelho de Oliveira de Azeméis, morador na Vila da Feira, filho de Manuel Alves e de Maria de Jesus, naturais da mencionada freguesia; e ela de idade de 32 anos, solteira, tecedeira, natural da freguesia de Santo André de Mosteirô e moradora na de Souto, filha de António Ferreira dos Santos e de Luísa Maria de Jesus, naturais da dita freguesia de Mosteirô; os quais nubentes se receberam por marido e mulher e os uni em matrimónio (…) conforme o rito da Santa Madre Igreja Apostólica Romana”.

Foram testemunhas presentes desta concorrida cerimónia Albino Pereira dos Reis, lavrador, morador no Lugar do Padrão, e o conhecido José Ferreira Serrano, artista, morador no lugar do Ferral, desta freguesia. “E para constar lavrei em duplicado este assento que, depois de ser lido e conferido perante os cônjuges e as testemunhas, comigo o assinam as testemunhas”, acrescenta o padre Manuel Ribeiro.

A origem do apelido e da alcunha

No caso desta família, o nome Tremoceiro parece que surge como uma alcunha mas, apesar de José Alves e Maria Joaquina de Jesus serem conhecidos lavradores e possuírem vastas terras, não se sabe que alguma vez se tenham dedicado ao cultivo de tremoços ou de alguma forma o tenham comercializado.

O apelido Tremoceiro é muito comum em Portugal e no Brasil, havendo centenas de pessoas com esse nome em ambos os países, e vamos mesmo igualmente encontrar muitos outros nos Estados Unidos, em França ou em Inglaterra.

O tremoceiro é a planta cuja semente são os tremoços. A semente, de cor amarela, é geralmente vendida para o fabrico de iogurtes e em Portugal é muito consumida em conserva como petisco ou aperitivo especialmente a acompanhar a cerveja, mas também se encontra nos restantes países de expressão portuguesa.

Existem cerca de 150 espécies classificadas neste género e conhecidas como tremoceiro. A maioria destas espécies tem a propriedade de fixar azoto/nitrogénio nos solos, e muitas são utilizadas como fertilizante natural em zonas agrícolas. Rico em proteínas, existem três espécies de tremoço que são cultivadas na Península Ibérica.

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