A Festa de S. Silvestre em Souto

No Sítio de São Silvestre, na Gesteira de Cima, existiu, desde tempos muito antigos, uma Ermida dedicada a este santo e cuja festa atraía multidões das Terras de Santa Maria

A Festa de S. Silvestre realizou-se durante séculos em Souto, junto à antiga Ermida de S. Silvestre e envolvia três concelhos, o de Ovar, da Vila da Feira e de S. Vicente Pereira Jusã que, naqueles tempos, também era um município.

A Ermida de S. Silvestre era o ponto de tangência dos três concelhos e a festa que atraía multidões daquelas bandas tinha particularidades únicas na região e, possivelmente, até em Portugal inteiro. Com efeito, as vereações dos três municípios incorporavam-se, devidamente paramentadas e uniformizadas, na procissão que percorria parte dos três concelhos. Após o desfile, cada uma das vereações ficava acantonada dentro do seu território e assistia ao grande arraial durante toda a tarde.

Esta antiga tradição, que se perdeu nos tempos, realizou-se até ao final do século XVII e, possivelmente, nos primeiros anos do século XVIII, uma vez que ainda em 1708, o Padre António Carvalho da Costa, na sua obra “Corografia Portuguesa”, regista a existência da Ermida de S. Silvestre na paróquia de S. Miguel de Souto.

A Localização da Ermida de S. Silvestre

Pela descrição existente em várias publicações antigas, a Ermida de S. Silvestre, em honra do Papa com o mesmo nome, situava-se do lado da freguesia de Souto, possivelmente no final da actual rua Gesteira de Cima. Em 1758, nas Memórias Paroquiais, o padre Manuel Alves da Mota, já não refere a existência desta ermida, mas refere explicitamente o Lugar de S. Silvestre, como um dos 24 lugares da freguesia.

O final da rua Gesteira de Cima faz divisa com S. Vicente Pereira e S. João de Ovar (esta freguesia, nos séculos anteriores, pertencia à freguesia de S. Cristóvão de Ovar) e seria o ponto de encontro das festividades em honra de S. Silvestre.

Infelizmente, nos dias hoje, é quase impossível encontrar vestígios da Ermida de S. Silvestre a qual, em 1708 ainda aparecia no livro “Corografia Portuguesa” do padre António Carvalho da Costa mas que, por volta de 1720, precisamente há 300 anos atrás já se encontraria em ruínas.

Quem foi o Papa Silvestre I

São Silvestre I foi Papa entre 31 de Janeiro de 314 até 31 de Dezembro de 335, durante o reinado do imperador romano Constantino I, que determinou o fim da perseguição aos cristãos, iniciando-se a Paz na Igreja. Silvestre I foi um dos primeiros santos canonizados sem ter sofrido o martírio.

Silvestre I enviou emissários para presidirem ao sínodo de Arles (314) e ao Primeiro Concílio de Niceia (325), convocados por Constantino, mas a sua ausência que é motivo de debate, provavelmente deve-se ao seu estado de saúde. Durante o seu pontificado a autoridade da Igreja foi estabelecida e construíram-se alguns dos primeiros monumentos cristãos, como a Igreja do Santo Sepulcro em Jerusalém e as primitivas basílicas de Roma (São João de Latrão e São Pedro), bem como das igrejas dos Santos Apóstolos em Constantinopla.

Atribui-se em geral a conversão de Constantino a uma visão que terá tido antes da batalha da ponte de Milvius (ano 312). Mas a tradição medieval, também teria dito que o imperador teria lepra incurável, e logo que Silvestre o baptizou por imersão numa piscina ficou imediatamente curado. Esta versão porém não tem fundamento, pois sabe-se que Constantino foi baptizado ao fim de sua vida, com a intenção de perdoar seus pecados, por Eusébio, bispo de Nicomédia.

O que diz a Grande Enciclopédia Portuguesa e Brasileira

A Grande Enciclopédia Portuguesa e Brasileira conta que antes da construção da Capela de Nossa Senhora da Guia, onde foi sepultado o prior Jorge Dinis de Figueiroa, “existia uma Ermida de S. Silvestre, muito mais antiga, num sítio a que davam o mesmo nome, já abandonada e em ruínas em 1719.” “Nela se realizava uma Festa Anual a que assistiam, por antigo costume, as Câmaras da Feira, Ovar e Pereira Jusã. As respectivas vereações incorporavam-se, uniformizadas, e assistiam ao arraial da tarde cada uma dentro do seu território, porque a ermida era o ponto de tangência dos limites dos três concelhos.” Tomo 30, página 26.

Ao longo dos séculos são várias as referências à Ermida de S. Silvestre e às festas que aí se realizavam. Em 1708, o Padre António Carvalho da Costa, na referida obra “Corografia Portuguesa” conta o seguinte: “São Miguel do Souto, Reitoria da Mitra, e Comenda da ordem de Cristo, tem 140 vizinhos, uma Ermida de Nossa Senhora da Guia e outra de S. Silvestre”.

Posteriormente, em 1758, foi feito um inquérito com 19 temas na Terra de Santa Maria, que envolveu todas as freguesias, denominado Memórias Paroquiais. Em Abril desse ano, o Padre Manuel Alves da Mota, sobre a paróquia de S. Miguel de Souto, destacou o seguinte:

“4º. Está situada entre montes e confina com a freguesia de S. Cristóvão de Ovar, com a de Santa Maria de Válega que dista desta uma légua, com a de S. Vicente Pereira que confina com esta, com a de Santo André de Mosteirô que confina com esta, com a de S. Martinho de Escapães que dista desta um quarto de légua, com a de S. Salvador de Fornos que confina com esta, com a de S. Nicolau, da Vila da Feira, que confina com esta, e com a de Santiago de Espargo que dista desta um quarto de légua.”

“ 6º. A Igreja Paroquial está no meio da freguesia e tem vinte e quatro lugares ou aldeias que são as seguintes: Tarei, Junto, Teobalde, Alcance, Fijô, Cabomonte, Espinheira, Areosa, Padrão, Vale Rico, Gesteira, S. Silvestre, Área Pedrinha, S. Gião, Macieira, Corga e Rial, Morgado, Pardieiro, Serrado, Ribeiro Souto, Salgueiral, Badoucos, Ferral e Pousada”.

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